História / origem

São gêmeas?… É a pergunta que mais ouvimos na vida e para quem ainda tem dúvidas, somos, sim! Nascemos em Ubá, Minas Gerais, num dia 2 de novembro e lá crescemos. Nosso pai, Celidonio Mazzei, antes de se tornar um renomado fotógrafo da região, foi músico; tocava bombardino na banda de rua local. 

Aos cinco anos de idade, encaramos um público pela primeira vez, em um concurso promovido por um circo armado na cidade. Levamos o primeiro lugar, cantando em dueto – e em italiano – a música “babbo non vuole”. Papai sempre nos ensinou canções de sua saudosa Itália.  

Na Rádio Educadora, no programa “A Hora do Guri”, as pequenas cantoras se tornaram a grande atração, cantando ao vivo os “jingles” do refrigerante local, o “Abacatinho”. 

Crescemos no meio de uma família numerosa – com mais nove irmãos – em uma casa com um grande quintal. Mas, a grande aventura era subir nas árvores do pomar vizinho – da família do compositor Ary Barroso, para “pegar” as frutas. Com barro, no quintal, gostávamos de fazer fogão e panelinhas, brincando de cozinhar; ainda no terreiro, a gente montava os cenários dos teatros que nós mesmas criávamos, nos exibindo para os amiguinhos. E com ingresso pago! Essas apresentações e as novelas na rádio, foram nossas primeiras experiências como atrizes. 

Em virtude da formação religiosa que recebemos, participamos ativamente das encenações litúrgicas, do coro da igreja – cantando inclusive em latim – e do coral do Colégio Sacrè-Coeur de Marie, onde estudamos e nos formamos professoras. Nos intervalos das aulas, criamos o grupo instrumental “Garotas”, sucesso em toda a região. Celma tocava baixo acústico e percussão; Celia, bateria, tendo aulas em Juiz de Fora com Miltinho, que é do Quinteto Onze e Meia, do Jô Soares.

No colégio, com as freiras francesas e com a mãe, habilidosa na costura, aprendemos o bordado, o “rabo-de-gato” e outras artes. Do artesanato popular, a confeccionar bruxinhas de pano, petecas de palha de milho, papagaios (pipas) de papel de seda, os presépios de Natal.

Desde meninas, saíamos a acompanhar as manifestações folclóricas de Ubá e arredores. Eram as Folias de Reis e do Divino, os Congados – estes, até hoje em atividade e com nossa presença, quando possível. Nas festas populares, lá estávamos, dançando quadrilha no ciclo junino, observando os calangueiros e os tocadores de cateretê nos bailes da roça. Aprendemos os passos do catira e a reproduzir o desenho sonoro dos instrumentos de percussão típicos dessas festas. Desse convívio com o povo, recolhemos algumas relíquias da literatura oral, como advinhas, lendas e “causos” do imaginário popular.  

Um costume que havia na região era falar “de-trás-pra-frente”. Consiste em inverter as sílabas das palavras. Até hoje nos divertimos conversando uma com a outra assim e até cantamos algumas canções conhecidas nessa “língua”.

Deixamos nossa terra natal para continuar os estudos no Rio de Janeiro. Escolhemos o Instituto Villa-Lobos, onde nos diplomamos em Licenciatura Musical. O catedrático de folclore, Edison Carneiro, foi quem nos despertou para o conhecimento mais profundo do folclore brasileiro. Depois de formadas, chegamos a lecionar música para turmas de ensino médio, no Rio.

Mesmo longe, soubemos conservar todo esse conhecimento adquirido na infância e adolescência. E até hoje, sempre visitamos nosso estado natal, quando aproveitamos para pesquisar e registrar as riquezas folclóricas que ainda resistem por lá, além das raízes de nossa música popular e regional, transformando aos poucos esse acervo cultural em produtos de consumo.

Outro tesouro recebido foi o contato diário com a arte culinária. Nossa mãe cozinhava em fogão a lenha, em pesadas panelas de pedra, ritual que repetimos nos dias de hoje, fazendo comidas típicas mineiras